terça-feira, 13 de setembro de 2011

Entre linhas


Seu coração já não é o mesmo, há mudanças que pessoas em sua volta percebem inclusive você. Ele já não bate na mesma velocidade, enquanto isso o tempo passa, os ponteiros vão... vão... e nunca voltam, apenas repetem o percurso. Você acompanha... e nunca volta, apenas repete alguns atos, as vezes errados, as vezes corretos... O tempo já não é o mesmo: o ar se tornou mais impuro, as culturas não são mais as mesmas, sua pele está diferente, seus dons mudaram e seus gostos também. Suas reações diante de certas notícias também estão diferentes. Você é mais forte, mas ao mesmo tempo o mais fraco, o que mais tem experiência, mas ao mesmo tempo o que aparenta ser menos experiente, você está ficando em outras palavras, mais velho, mais distante do que um dia passou e mais longe de um momento que queria que se repetisse. Qual seria o preço de envelhecer? Sofrer em silêncio, se mostrar mais forte mesmo as pessoas querendo ajudar achando que já não aguenta, ou até mesmo o contrário. Ver pessoas partirem, querendo sua vida em troca da delas, se tornando cada dia mais próximo de ser chamado de idoso. Como seria entender, que os tempos se passaram, que oportunidades perdidas não voltarão? Como seria ter pessoas em sua volta, achando que estão ajudando mas que no fundo o que você pode estar a pensar é "porque não percebes que prefiro ficar sozinho?" Como seria sentir falta de tudo e lembrar de quase nada? Sabe, a vida nunca vai ser justa, pois o preço que você deve ao viver e consequentemente envelhecer, é sofrer. Mas junto a ele, aprender, entender, compreender e SER. E o que antes era escrito entre linhas pela sua sabedoria, agora resta ser entendido pelos seus novos integrantes da família, ou ser lido por você, com a ajudinha de alguém e de seus novos óculos.
Texto pensado em meus avós, que estão passando por um momento difícil.

Ana Carolina Sardo

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Caixa surpresa



     Meus sentimentos são tão complicados, sempre tento contê-los, organizá-los, mas no fim se torna tão difícil a ponto de eu não saber mais o que fazer. Queria que eu pudesse controlá-los, acho que seria mais feliz, me sentiria bem melhor. É como se eu tivesse uma caixa, muito pequena, uma caixa surpresa, onde estivesse todos meus sentimentos ali dentro, todos apertados, sem exceções. E a cada pessoa que eu conhecesse plantasse um novo sentimento ali dentro, que eu não saberia qual, ou até mesmo, alimentá-se um já existente. Mas isso não quer dizer que meus próprios sentimentos não possam criar outros novos, ou alimentá-los também, aliás justo por essa caixa ser pequena, meus sentimentos com o passar do tempo estariam todos bagunçados, alguns atrapalhando os outros, alguns mudando os outros, alguns criando outros e até mesmo matando outros.
     Infelizmente, essa caixa está fechada e eu não tenho a chave de seu cadeado. O que me incomoda em tudo isso é: Assim como eu me considero essa pequena caixa surpresa, como eu consigo colocar todos meus sentimentos nela mesmo fechada e não consigo retirá-los? É algo inexplicável e ao mesmo tempo agonizante, e eu creio que não sou  a unica pessoa que queira saber.
     O amor e o ódio por mais que sejam as palavras mais pequenas, em sentimentos, são as que mais me ocupam espaço e as que mais me trazem problemas, pelo simples fato de que essas duas palavras, podem criar várias outras, que por algum acaso, não são pequenas nem na escrita, como a solidão, a tristeza, o arrependimento e o sofrimento. Isso faz com que se juntem todos pelo pouco espaço, e eu não saiba o que fazer.
     Realmente, a cada dia que passa essa caixa se torna ainda mais pequena pra tantas coisas, elas ao menos poderiam aumentar, mas no fim, parecem que só diminuem e isso faz com que eu não saiba qual sentimento é verdadeiro, porque são tantos e de uma forma ou de outra, todos ligados uns aos outros. Talvez seja por isso que não consigo retirá-los. O que me resta, é pegar essa pequena caixa, e cuidar dela, tentar de todas as formas, organizar ela, e independente do que aja dentro, ser feliz. Porque o que tem dentro dela, só eu sei, e por mais que eu conte a alguém, ninguém vai entender, ninguém vai ter essa mesma caixa, esses mesmos sentimentos. E por mais que o ódio e o amor estejam ocupando tanto espaço assim, eu sei que existem outros sentimentos, que eu posso simplesmente colocar sobre eles, como a felicidade e a amizade e eu sei que um dia o amor será o melhor sentimento ali dentro e andará junto com todos os outros bons. Assim como tem pessoas que conseguem alimentar alguns sentimentos que não são bons, eu posso sim alimentar os que me deixam bem, os que me fazem melhor.
     Por mais que eu queira abrir essa caixa, que graça teria? Que graça teria eu controlá-los? O bom disso tudo, é saber que eu sou o que sou mesmo com essa caixa minúscula e que a cada vez que alguém plantar algo nela, se for algo bom, fará de mim mais feliz e se for algo ruim, fará de mim ainda mais forte.

Ana Carolina  Sardo

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Santa Claus

   24 de dezembro de 1990

   Querido Papai Noel, estou fazendo essa carta porque quero ganhar um brinquedo no natal, que vai ser amanhã, eu tenho 8 anos e me chamo João. Papai me disse que se eu fizesse essa cartinha pra você, eu ganharia o meu brinquedo já nesse natal. Então eu vim pedir um vídeo game pra mim jogar com os meus amigos. Eu tenho um amigo que tem um, e é muito legal, nós jogamos todos os dias. Ah! Se você puder, quando vim trazer o meu brinquedo e descer pela chaminé, coloca ele embaixo da árvore de natal, que minha mãe fez pra gente esperar você, nós colocamos umas meias pra você colocar seu doces. Aqui está nevando muito, então toma cuidado pra não escorregar. Eu queria muito te conhecer Papai Noel, meu pai fala todo dia de você e fala que se eu for uma boa criança vou ganhar o que eu pedir, por isso tenho me comportado todo dia, assim você não tem motivos pra não me dar não é mesmo? Então é isso, espero você com meu brinquedo aqui!
 Beijos, João

24 de dezembro de 2010

     Querido Papai Noel, estou fazendo essa carta mesmo sabendo que ela nunca chegará a você. Enfim, o natal já é amanhã, agora meus 8 anos se foram e aqui estou eu depois de 20 anos relembrando os velhos tempos. Meu pai não está mais aqui comigo, mas esse dia sempre me faz lembrar das coisas que ele me contava. Meu amigo que te falei, está aqui comigo, aliás estamos jogando vídeo game, mas como aquele que pedi pra você, infelizmente já estragou, compramos outro. Aliás só depois de anos, descobri que não foi você quem trouxe o meu presente de 8 anos. De qualquer forma, minha casa estará sempre  arrumada pra você, agora moro em apartamento, então acho que você vai ter que vim pelo elevador mesmo, pelo menos assim, a neve não irá atrapalhar. Agora quem enfeita minha casa, sou eu, minha mãe também não está mais aqui comigo, mas os enfeites ainda são como os dela. 
      No dia que eu fiz a sua carta, com 8 anos, eu sonhei com você, querendo ou não, eu te agradeço por ter me deixado te conhecer. Agradeço por deixar tantas crianças nesse espírito de natal, se não fosse por ele, esse dia passaria em branco e provavelmente não me comportaria tão bem não é mesmo? Haha. Então é isso, espero você de novo, dessa vez só com os doces mesmo.
    
Beijos, João


Ana Carolina Sardo
   

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Doce lembrança

     Não me preocupava com nada, era tão só, mas ao mesmo tempo tão cheia de amigos, era feliz independente da situação e minha tristeza era passageira, não durava ao menos algumas horas, ou sequer minutos. Apenas duas coisas me preocupavam: meus brinquedos e ficar perto dos meus pais. Recebia a atenção deles e independente do que fizesse de errado eles aceitavam, aliás qualquer pessoa aceitaria tudo que eu fizesse, poderiam até mesmo me admirar. Sem preocupações em relação aos estudos, sem ter que estudar toda hora ou escrever a ponto de cansar o braço, apenas a preocupação de fazer um desenho bonito que agradasse a professora. Todos me protegiam e me defendiam mesmo sabendo que estava fazendo algo errado. Os amigos não eram tão falsos, aliás nem tinha diferença entre amigo falso e verdadeiro, porque não era tão tola a ponto de confiar tanto em uma pessoa. Meus pais sempre faziam de tudo pra me agradar quando parecia triste, ou até mesmo chorando, já que era sempre  por causa de algum machucado ou algum desejo não realizado.
     Ainda não tinha descoberto o sofrimento de verdade, ou o amor tantas vezes necessário nessa vida, eu era apenas uma pessoa pequena, com uma enorme felicidade. Era tão legal ver meus amigos, brincar com bonecos e até mesmo de boneca sem que fosse julgada. A cada dia em que se comemorava presenteando as pessoas, pedia os brinquedos mais legais aos meus pais, as bonecas mais fofas ou os carrinhos mais modernos para colecioná-los.
    Ter milhares de ursos e cada um com um nome diferente, conversar com o urso considerando ele uma pessoa real, fazendo assim com que eu nunca me sentisse sozinha e sem que alguém acabe tirando sarro. Brincar de casinha, de professora, de veterinária, de lojinha, de médica e várias outras coisas em que a imaginação não teria limite. Assistir aos desenhos animados e sempre escolher algum personagem para eu e cada amiga fingir que fazia parte desse desenho.
    Sentir medo do escuro, ouvir histórias pra dormir, se impressionar com desenhos tão bobos, rir com coisas mínimas, mas sempre rir, sempre sorrir. Não me importar com que os outros achavam. Ser feliz, por saber só o lado bom da vida, não ter rotina onde a cada dia eu encontrava algo novo e diferente, a cada sorriso meu eu era admirada e a cada dente de leite arrancado eu era elogiada. Mas infelizmente nada é pra sempre como aprendemos nos contos de fadas.

Só uma doce lembrança, de quando eu era apenas uma inocente e pequena criança.

Ana Carolina Sardo